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  • Aurízio Freitas

Um resumo sobre os partidos brasileiros em 2019 e seus desafios para 2020. #postblog



Em sua última "live" do ano, na quinta-feira 26 de dezembro, o presidente Bolsonaro mencionou que poderia não ser candidato em 2022, trazendo de volta a especulação de "presidente de um único mandato", que foi usada em sua campanha como forma de minimizar sua rejeição. Em 2019 Bolsonaro insistiu no erro de colocar sua família no centro do poder, com os filhos se revezando na geração de crises de governo. Pior: ele aceitou pagar o preço por isso. Talvez seja a causa de não ter conseguido durante o ano reverter a tendência de queda da avaliação positiva do seu governo. Seu novo (e futuro) partido, o Aliança pelo Brasil avança na mesma direção, combinando controle familiar e de núcleo fechado. Destaca-se também a dificuldade do Presidente em jogar o jogo político brasileiro, que consiste historicamente no binômio ruptura-conciliação. O político médio brasileiro até aceita mudanças nas regras de conduta, só não aceita a exclusão. O núcleo político-familiar do governo em 2019 atuou apenas na primeira parte do binômio, exceto quando forçado por situações de grave impasse institucional com os poderes Judiciário e Legislativo. Sérgio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública, possui grande aprovação e popularidade, mas não demonstrou até agora apetite político capaz de fazê-lo vice de Bolsonaro ou candidato oficial em 2022. A economia nacional, comandada pelo ministro Paulo Guedes com total aval de Bolsonaro, deixará bons avanços e resultados que diante deste quadro político podem tornar-se um "espólio sem herdeiro natural".


O Partido dos Trabalhadores-PT insistiu em 2019 nos mesmos erros, sem autoavaliação e sem ouvir além de suas paredes. O dado, apresentado na pesquisa XP Investimentos/IPESPE-Dezembro de 2019, de que 32% dos brasileiros entrevistados atribuem ao governo Lula a responsabilidade pelos atuais problemas econômicos é grave equívoco de avaliação da população, que traz ao partido graves consequências. Foi Lula quem bancou o modelo econômico Palocci-Meireles, que garantiu tranquilidade econômica ao país nos primeiros seis anos de seu governo, com impactos positivos suficientes para eleger a sucessora Dilma Rousseff. Pela primeira vez na República brasileira, exceto em períodos ditatoriais, um mesmo partido teria três mandatos seguidos na presidência da República. As mudanças econômicas malsucedidas se deram sob o comando da ex-Presidente Dilma, que também brigou internamente para ir à reeleição quando não possuía mais condições políticas para isso. Ela vetou o retorno de Lula e ameaçou o partido. Ademais, o partido, que fora construído desde o final da década de 70 a partir da bandeira da ética na política, abandonou-a sem muita cerimônia e simplesmente não toca no assunto. O PT ainda não enfrentou o espelho.


O Partido da Social Democracia Brasileira-PSDB, a terceira força política nacional relevante, não teve peso na eleição presidencial de 2018, com apenas 4% de votos para o candidato Geraldo Alckmin. Uma saída pela porta dos fundos, gerada pela desconexão quase completa com os acontecimentos da política nacional após o final dos bem-sucedidos mandatos de Fernando Henrique Cardoso em 2002. A expectativa de ver o PT fracassar politicamente, somada à subestimação do projeto Bolsonaro, deixou o partido em total zona de conforto, querendo "assistir de camarote" o que não aconteceria. Em 2019, o governador de São Paulo João Dória, digamos, o nome automático para a disputa presidencial em 2022 não encontrou unidade no partido em torno de seu nome. Sua ascensão meteórica e trajetória tumultuada lhe confere grande desconfiança dentro do ninho tucano, que por outro lado também não demonstra interesse em criar novos líderes. Sua gestão herdou ainda uma máquina repleta de vícios, fruto de 24 anos de poder do PSDB paulista, e neste ano ainda não apresentou resultados ou inovações capazes de destacá-lo em nível nacional.


Caberá, naturalmente, em 2020 a estas três forças políticas fazerem os ajustes necessários. Caso contrário, a dinâmica da política brasileira, especialmente em um momento de mudanças de conceito e de formas de interação e comunicação, permitirá o surgimento de uma nova quarta força.

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